A TRAVESSIA DE BUDA E O PLANTIO DAS MUDAS ME LEVARAM PARA A OUTRA MARGEM DO RIO

Após o plantio das mudas nativas, comecei a me lembrar da imagem da travessia budista. A imagem da travessia compreende o espaço de tempo existente entre o momento que deixamos um lado do rio que nos torna inquietos, mas que o conhecemos muito bem e embarcamos numa jornada em direção à outra margem, onde poderemos encontrar um estágio diferente da existência: a iluminação plena.

Ocorre que em um determinado ponto da travessia rumo a esse nobre objetivo já não enxergamos mais a margem de onde saímos e tampouco, vemos a praia do lugar desejado do destino.

Momento de incertezas, de enfrentar as correntezas e as dificuldades para se avançar rumo à margem desejada, ainda incerta no horizonte. Situações que devem ser enfrentadas por aqueles que querem trocar a margem dos apegos ignorantes pela margem oposta, a da sabedoria compassiva.

Huston Smith e Philip Novak. In Budismo – Uma Introdução Concisa – Editora Pensamento-CultrixLtda, 2015 p.111

Pensamentos nessa linha, claro que sem essa elevada visão e mérito, percorriam minha mente quando, após o plantio, os dias foram se passando e as dificuldades aparecendo no nosso projeto de reflorestamento.

As mudas se preparando para a jornada

Se antes o inconformismo com uma terra que clamava por regeneração nos motivara e nos levara às ações do plantio, agora os desafios da natureza surgiam nas suas diversas nuances, trazendo toda sorte de dificuldade e, pior, levando-nos à uma incerteza sobre o acerto do que se estava fazendo. Trazia até uma ponta de desânimo.

Os entraves burocráticos, o arranjo do terreno e a busca de mudas pareciam etapas muito simples, banais se comparadas com as dificuldades naturais que as mudas enfrentavam nos primeiros anos do reflorestamento.

RESTAURAÇÃO ECOLÓGICA

Sim, a etapa do plantio das mudas terminou muito rapidamente. Alguns dias de trabalho e todas elas saíram dos tubetes e foram espalhadas no terreno: adaptavam-se agora ao novo ambiente e suportando as oscilações do clima.

Gilson e as mudas

Como tivemos a responsabilidade de iniciar a recuperação da área, cabia-nos também o esforço para cuidar bem do projeto. Seguíamos o que a consciência despertava em nós e o que os homens que entendiam do meio ambiente sugeriam fazermos. Cumpríamos todas as orientações recebidas.

Na época, pesquisamos sobre os ensinamentos acadêmicos que mostravam que a restauração ecológica é algo intencional, ou seja, uma iniciativa para facilitar a recuperação de sistemas ecológicos.

A restauração é uma ação com foco no restabelecimento dos processos base da ecologia, buscando que espécies se organizem e se adaptem, começando um processo vital de regeneração e auto-sustentação, sendo que a recuperação promove também a integração dos seres humanos ao bom ambiente natural.

No conforto dos tubetes

Simples de dizer e difícil de executar, para ser maior o desafio, tínhamos o fato de que a área que desejávamos recuperar havia perdido há tempos a sua vegetação nativa. Solo compactado, sem nutrientes e com banco de sementes pobre.

Diversos desafios estavam presentes, afrontando nossa vontade de reconstruir a natureza ali e a virtude da perseverança era de nós esperada para seguirmos adiante e cuidar da área, contornar os vários problemas e fazer nosso sonho seguir adiante.

CUIDADOS INICIAIS PÓS-PLANTIO

Principalmente nos dois primeiros anos, levamos muito a sério todos os cuidados iniciais recomendados pelos órgãos do meio ambiente e aqueles contidos nos compromissos que assumimos.

Foram regularmente feitos os coroamentos ao redor de todas as mudas, eliminando-se as ervas ao redor delas. Como a área era pasto anteriormente, o solo estava pleno de sementes de braquiária, capim utilizado nas pastagens. Foi duro e sem sucesso, o trabalho de conter a braquiária e evitar o sufocamento das mudas.

No futuro, iríamos aprender outras técnicas que existem para essa questão, indicando não ser necessário eliminar o capim, e sim, utilizá-lo como base de matéria orgânica para decomposição e recomposição do solo. Vai se roçando o capim ao redor das ruas das mudas, utilizando-se a massa orgânica gerada por essa roçada para decomposição e restauração do solo. Mas isso não nos era conhecido nos dias iniciais do reflorestamento.

Outras técnicas também viríamos aprender depois, por exemplo, o ensinamento de que se pode utilizar grandes pedaços de papelão ao redor de mudas mais importantes. O papelão abafa o capim e não o deixa subir, facilitando assim o crescimento da muda. Com o tempo e quando a muda já cresceu um pouco, ele se decompõe, não causando dano ao ambiente.

Todavia, naquela época, capinávamos e capinávamos muito bem ao redor das mudas, tentando eliminar o capim.

Batalha inglória e perdida!

No delírio, por uma vez, recorremos ao glifosato, pecado dos pecados!!!

Apesar do esforço, algumas mudas se perderam sufocadas pela agressiva braquiária.

Outras mudas se foram nas águas das pesadas chuvas, logo após o plantio. A sulcagem, feita com a intenção, boas intenções aquele lugar está cheio de um bom plantio, tornou a terra fofa e fácil de ser levada pelas águas. E logo depois do plantio as chuvas vieram muito pesadas e junto com as águas que corriam pelos sulcos e revolviam a terra, foram embora muitas outras mudas…

As guerreiras prosperando

As mudas sobreviventes enfrentaram, depois, as formigas, ávidas numa terra sem equilíbrio. Por mais que seguíssemos os conselhos técnicos, procurando formigueiros e espalhando iscas, elas venciam as batalhas. Cortavam as folhas tenras que iam brotando e deixavam os galhos das mudas pelados. Muitas outras mudas se foram também, por obra das formigas…

Formigas pequenas no tamanho e grandes no problema

Descobrimos ser impossível debelar as formigas, quando controlávamos o ambiente do reflorestamento elas vinham de longe, dos pastos, dos vizinhos… Estivesse a área equilibrada e com vegetação abundante elas, as formigas, escolheriam alguns espécimes mais fracos para buscarem seu material. E todo o sistema se equilibraria.

Enfim, acertos e desacertos, numa luta constante na qual permanecemos por anos.

A SOBREVIVÊNCIA E O FUTURO

Apesar da luta, as dificuldades enfrentadas logo mostraram que partes das mudas não chegariam mesmo ao estágio adulto. E começamos a compreender isso de outra forma, mais abrangente: era a natureza, agindo segundo a sua lei.

A contribuição ao ecossistema por partes das mudas que iam se perdendo, ou das pequenas árvores que depois morreriam, seria de outra maneira: gerariam matéria orgânica e nutriente para as que restassem.

Suas participações no ciclo da vida teriam esse papel: quebrar a dureza da terra com suas raízes iniciais, dissolver nutrientes, virar matéria orgânica e cumprir a parte que lhe cabia nesse processo.

As outras, as que melhor se adaptassem, as que estivessem nos lugares mais propícios do terreno, essas seguiriam adiante e formariam a floresta no futuro. De uma grande quantidade de sementes e mudas, uma parte restaria para contar a história, acreditamos muito nisso.

Floresta prosperando e me levando a outra margem do rio.

Tudo dentro de um processo de sucessão natural, que comandaria os ciclos futuros, coordenando as diversas velocidades de crescimento entre espécies pioneiras, secundárias e todo o complexo que iria se formar. Umas cresceriam mais rapidamente e outras seguiriam de forma lenta.

A grande verdade da natureza é que uma rica placenta precisava ser formada ao longo do tempo para a vida ressurgir na sua plenitude naquele nosso pedacinho de chão.

E esse era o nosso objetivo sagrado, essa era a margem do rio desejada quando iniciamos a travessia. A nossa travessia.

5 comentários em “A TRAVESSIA DE BUDA E O PLANTIO DAS MUDAS ME LEVARAM PARA A OUTRA MARGEM DO RIO

  1. Maravilhosa e abençoada iniciativa e esforço e esse maravilhoso presente que Deus nos deu e nos da todos os dias que é a natureza e como ela é valente
    Temos que nos sensibilizar enxergar e respeitar esse nosso tesouro
    Parabéns
    Que Deus sempre abençoe e fortaleça esse lindo propósito

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